Nova autoexclusão do Gov.br: O primeiro passo prático para vencer o vício em apostas

Recentemente, o Governo Federal lançou uma ferramenta crucial para a saúde pública no Brasil: o sistema nacional de autoexclusão de apostas via Gov.br. Essa iniciativa vai ao encontro de algo que defendo diariamente no consultório: para vencer o transtorno do jogo, a força de vontade, sozinha, muitas vezes não é suficiente. É preciso estratégia!

Como psiquiatra especializado em transtornos do impulso, vejo muitos pacientes chegarem ao tratamento frustrados por sucessivas recaídas. Eles prometem parar, mas diante da facilidade de um clique, o sistema de recompensa do cérebro fala mais alto.

Para um tratamento eficaz e duradouro, trabalho com uma metodologia baseada em 4 pilares fundamentais. E a nova ferramenta do governo se encaixa perfeitamente no primeiro e mais urgente deles.

Pilar 1: Controle de Estímulos (O “Torniquete”)

Imagine tentar fazer dieta e morar dentro de uma padaria. É humanamente impossível manter o controle o tempo todo. Com o jogo, é a mesma coisa. O primeiro passo para tratar o vício não é discutir traumas profundos (isso vem depois), mas sim estancar a sangria.

Chamamos isso de Controle de Estímulos. O objetivo é criar barreiras físicas e digitais entre o paciente e a aposta, visando a prevenção de fissura (impulso de jogar) e a recaída. Isso se faz de duas formas:

  1. Bloqueio de Acesso às Plataformas: É aqui que entra a nova ferramenta do Sigap (Gov.br), que permite bloquear o CPF em todas as casas de apostas regulamentadas.
  2. Bloqueio de Acesso ao Dinheiro: Sem dinheiro, não há aposta. Considero fundamental que, no início do tratamento, o paciente delegue a gestão financeira a uma pessoa de confiança, limitando seu acesso a cartões e PIX.

Ao dificultar o acesso, damos tempo para o cérebro “esfriar” e para a parte racional retomar o controle antes que o impulso vença.

Os Outros Pilares da Recuperação

Embora o bloqueio seja vital, ele é apenas o muro de proteção. Para reconstruir a vida que existe atrás desse muro, precisamos dos outros três pilares:

  • Pilar 2: Jogadores Anônimos (JA): A força do grupo é insubstituível. Ouvir e compartilhar experiências com quem vive a mesma dor quebra o isolamento e a vergonha, sentimentos que frequentemente alimentam o vício.
  • Pilar 3: Psicoterapia Especializada: Entender os gatilhos emocionais, trabalhar a tolerância à frustração e desenvolver novas fontes de prazer que não envolvam risco.
  • Pilar 4: Psiquiatra Especialista em Transtorno do Jogo: O acompanhamento médico é essencial para tratar a “química” da dependência e comorbidades frequentes, como TDAH, depressão ou ansiedade, que muitas vezes são a causa raiz da busca pelo jogo.

Conclusão

A ferramenta de autoexclusão do governo é um avanço e deve ser utilizada por todos que sentem que perderam o controle. No entanto, ela é uma ferramenta, não a cura.

Se você ou um familiar está enfrentando problemas com apostas, comece pelo bloqueio, mas não pare por aí. A recuperação sólida acontece quando unimos a barreira de segurança ao tratamento médico e psicológico especializado.

Notas de Rodapé e Referências

psiquiatra especialista em jogo patológico” ou “tratamento para vício em apostas” nos subtítulos ou no primeiro parágrafo, pois são termos que as pessoas buscam muito no Google quando estão desesperadas.